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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Vida por um frasco: gerenciamento inadequado de medicamentos pode trazer riscos à saúde



Vida por um frasco: gerenciamento inadequado de medicamentos pode trazer riscos à saúde

No último mês, dois casos ganharam espaço na mídia mostrando a importância do gerenciamento de medicamentos para segurança ao paciente: o da menina Sthephanie dos Santos Teixeira, de 12 anos, que morreu ao ter injetada na veia vaselina ao invés de soro fisiológico, e o de um bebê de apenas dois meses, que recebeu vacina vencida em um posto de saúde na Bahia. Esses casos refletem na prática o que o Institute of Medicine dos Estados Unidos já levantou: mais de sete mil pessoas morrem anualmente e outros 1,5 milhão de pessoas sofrem graves danos por erros de medicação naquele país. Embora, no Brasil, não haja estatísticas oficiais sobre a questão, o programa para a Aliança Mundial de Segurança do Paciente da Organização Mundial de Saúde estima que pelo menos um paciente a cada dez sofra o dano inadvertido.

Visando melhorar a seguranca do gerenciamento de medicamentos, a Joint Commission on Accreditation of Healthcare Organizations identificou cinco processos que merecem atenção especial: a seleção e obtenção do medicamento; a prescrição; o preparo e dispensação; a administração de medicamentos e; o monitoramento do paciente em relação aos efeitos dos medicamentos. Entrevistamos a médica especialista em Saúde e Administração públicas, Maria Manuela Alves dos Santos, atual superintendente do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA) para saber dos principais problemas e soluções para esta área.

CBA - Como analisa estas duas situações envolvendo gerenciamento de medicamentos, ocorridas num espaço de uma semana?

Maria Manuela - A Organização Mundial de Saúde está muito preocupada com a questão dos medicamentos, e a JCI acompanhando esta preocupação criou um capítulo específico para este tema na terceira edição do Manual Internacional de Acreditação para hospitais. O capitulo abrange o gerenciamento de medicamento, desde a compra até o descarte final da embalagem. Todo processo que envolve medicamento é um processo de risco. O caso da menina Sthephanie foi resultado de uma troca de embalagens parecidas, contendo substâncias totalmente diferentes, o que demonstra uma falta de atenção e controle da segurança no que se refere a medicamentos por parte da organização hospitalar.

CBA - Quais foram os fatores preponderantes para ter havido esse incidente?

M.M. - Eu diria que foram três erros capitais. O primeiro foi colocar embalagens iguais em locais de alta frequência de profissionais e pacientes. Os frascos até podiam ser semelhantes, mas teriam de ter alguma marcação que diferenciasse as duas soluções. Poderiam ser tarjas de cores diferentes, ou letras maiusculas, código de barra, ou até mesmo identificação por raio infravermelho. O segundo foi a falta de capacitação profissional que ficou evidenciada no caso, principalmente quando a auxiliar de enfermagem responsável pelo caso diz que se confundiu. Fica evidente que não há um programa de treinamento de pessoal na unidade hospitalar. O terceiro erro diz respeito ao estresse do trabalho. Muitos profissionais de saúde atuam sob cargas horárias extenuantes, emendando plantões em unidades diferentes. Sabemos que a maioria de erros como este ocorrem ao final das jornadas de trabalho. O cansaço físico diminui o estado de alerta das pessoas proporcionando a ocorrencia de erros que poderiam ser evitados.

CBA - Quanto à confusão de embalagens, o que o manual de Acreditação Internacional recomenda?

M.M. - Todo medicamento, ao chegar a uma unidade, deve receber uma checagem no almoxarifado e estocado de forma que embalagens parecidas não fiquem próximas. A partir daí, todos os recipientes devem ser etiquetados, de preferência com códigos de barra, para haver uma leitura mais segura. Deve ser feita uma nova checagem antes de receber o pedido do posto de enfermagem, para etiquetar o recipiente com o nome do paciente e algumas informações sobre ele. Após a utilização do medicamento, deve-se fazer o descarte adequado. Muitos materiais podem ser reciclados e, outros devem ser tratados antes de ser descartados por conta de sua toxicidade.

CBA - E quanto às jornadas de trabalho?

M.M. - A recomendação é que as instituições cumpram a lei, que diz que uma carga horária de trabalho não pode passar de 8 horas. Mais do que isso, o profissional fica mais suscetível a ter menos atenção no trabalho.

CBA – Qual o local ideal e seguro para acondicionar medicamentos?

M.M. – O ideal é que seja em uma farmácia ou almoxarifado, onde haja supervisão permanente de um farmacêutico. Alguns medicamentos exigem refrigeração específica, como é o caso das vacinas. A temperatura de armazenamento deve ser rigorosamente a que está determinada para o acondicionamento da substância. Nem 1 grau a mais, nem 1 grau a menos.

CBA - A senhora acredita que este dois eventos servirão para as instituições hospitalares revejam seus conceitos sobre gerenciamento de medicamentos?

M.M. - Sim. Não só sobre medicamentos, como pela busca de uma qualidade contínua e segura para os seus pacientes. Os estabelecimentos de saúde precisam entender que precisam de normas. Mesmo porque, quando acontece algo, como o caso da menina Sthephanie, não é a funcionária a única responsável. No caso do gerenciamento de medicamentos cujo o processo é transversal na instituição tem que analisar toda a cadeia e identificar as barreiras que possam levar a erros tão graves quanto estes.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Segurança do paciente: número de mortes por eventos adversos ainda é grande



“Os números de eventos adversos são assustadores.” Foi essa a conclusão do médico José de Lima Valverde, Coordenador de Acreditação para Planos de Saúde do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), que representou a instituição no III Fórum Internacional sobre Segurança do Paciente: Erros de Medicação, realizado em setembro, em Ouro Preto, Minas Gerais.
Especialistas internacionais revelaram que ocorrem cerca de 195 mil mortes por ano nos Estados Unidos, devido a erros que poderiam ser prevenidos, principalmente aqueles referentes a erros de medicação e a eventos sentinela ocasionados por falhas nas distintas fases do gerenciamento e uso de medicamentos. A questão já tinha sido levantada no final de 1999, pelo Institute of Medicine (IOM) que publicou dados do Harvard Medical Practice Study realizados na década anterior, que mostraram que entre 44000 e 98000 americanos morrem, a cada ano, vítimas de erros relacionados à saúde, o que seria equivalente à queda de um jumbo por dia, nos USA.
O representante do CBA apresentou os padrões e as metas internacionais de segurança do paciente preconizada pela Joint Commission International (JCI), representada com exclusividade pela entidade no Brasil. Valverde assinala que essas recomendações estabelecem medidas que visam à segurança de medicamentos, em toda a cadeia do sistema: seleção, aquisição, armazenamento, dispensação, administração e monitoramento. “Em todas estas fases o Manual de Padrões recomenda a elaboração e implantação de políticas, procedimentos e processos específicos e transdisciplinares”, valoriza.
Segundo Valverde, os hospitais acreditados pela JCI/CBA levam vantagem no quesito segurança do paciente, já que a acreditação internacional recomenda que sejam previamente definidos seus riscos assistenciais e ambientais, criados a gerência e gerentes de riscos, o estabelecimento das ferramentas de previsibilidade de risco, definido os eventos sentinela, por exemplo. “Os hospitais acreditados pelo CBA realizam análise de causa-raiz quando estes ocorrem, monitoram a qualidade assistencial por indicadores e, sobretudo, investem em educação continuada e treinamento de seus colaboradores. Além disso, utilizam as falhas como uma oportunidade de melhoria, ao contrário do viés punitivo”, ressalta o coordenador do CBA. “Zerar erros não nos parece possível mas, certamente, aqueles que não implantarem medidas efetivas de segurança terão zeros acrescidos aos seus números, indubitavelmente. A grande questão é que a maioria dos hospitais, não monitora e, portanto, desconhece seus erros”, ressalta Valverde, dizendo ainda que os hospitais acreditados educam e treinam seus colaboradores para a identificação correta do paciente, antes da administração de medicamentos ou da realização de procedimentos, utilizando, pelo menos, duas formas de identificação que não sejam o número do quarto ou do leito, valendo-se do nome completo e data do nascimento ou do número do registro. José Valverde também chama atenção para a educação dos pacientes e familiares para que saibam quais perguntas devem fazer aos profissionais de saúde, antes de aceitarem e se submeterem a procedimentos, incluindo o consentimento informado. “O monitoramento de eventos adversos é fundamental e, os hospitais acreditados estimulam seus colaboradores no sentido de informarem a gerência de qualidade, eventos que tenham ocorrido”, afirma.
Valverde ressaltou que no evento foram abordadas ainda diversas questões relevantes, como o papel do farmacêutico clínico, a interdisciplinaridade do processo de gestão e uso de medicamentos, a adequada prescrição médica, orientada por políticas, a dispensação e preparação de fármacos, a questão do controle de eletrólitos concentrados e de medicamentos de alta vigilância.